Com o final do ano a aproximar-se, as renegociações de contratos de seguros de Acidentes de Trabalho começam a ser um assunto relevante para as empresas.
As seguradoras querem aumentar prémios e as empresas precisam de reduzir custos. É conciliável? Como se gere, em tempo de crise, a necessidade de subir prémios e de reduzir custos? A questão é colocada a escassos dois meses do final do ano, quando as negociações se intensificam, já que tradicionalmente é em Janeiro que se renovam as apólices. Mas o actual contexto económico obriga as empresas a avançar com apertadas revisões de custos, quando o incremento da responsabilidade das seguradoras, acentuado com a entrada em vigor da legislação que regula os acidentes de trabalho, potencia o agravamento dos prémios. "A questão é de facto muito relevante", reconhecem Paulo Fortuna e Pedro Carranço, respectivamente director de Acidentes de trabalho e director de Employee Benefits da Generali. "O alargamento do âmbito da responsabilidade das seguradoras resultante da Lei nº 98/2009 trouxe inevitavelmente um reajustamento das bases tarifárias. Se ao conjunto de responsabilidades que existia até então correspondia um determinado factor de risco, o seu alargamento originou necessariamente um incremento desse factor. É uma simples operação directa de causa/efeito", começam por explicar ao OJE. "A esta lógica directa e objectiva aplicaram-se desde logo, em alguns casos, nuances diferenciadoras resultantes de pressões de ordem comercial e concorrencial, como sempre acontece em qualquer sector de actividade. Sobretudo num tipo de seguro que é obrigatório e portanto incontornável", relatam os dois responsáveis da Generali. "Mas precisamente por ser um seguro obrigatório, a indústria seguradora não pode em circunstância alguma incorrer no pecado de, à maior responsabilidade decorrente da referida Lei nº 98/2009, fazer corresponder um volume de prémios global inferior ou sequer igual àquele que se verificava antes da implementação da lei. Seria irresponsável fazê-lo e irresponsabilidade é uma ‘distracção' que a indústria seguradora já deu provas suficientes de não a caracterizar", asseguram. Paulo Fortuna e Pedro Carranço confirmam que a actual crise económica veio dificultar o inevitável processo de reajustamento do custo à nova realidade do seguro de Acidentes de Trabalho. Por ter efectuado o necessário ajustamento logo após a entrada em vigor da nova legislação, a Generali tenciona agora propor o aumento de prémios apenas nos casos em que a sinistralidade o exija. "Com ou sem crise, esta é uma forma de actuação absolutamente inevitável e que, por ser objectiva e lógica, é facilmente entendida pelos clientes. No entanto, a esse entendimento nem sempre corresponde a aceitação prática do mesmo, ou seja, particularmente no presente contexto de crise e perante a iminência de aumento do custo do seguro, as empresas tendem a procurar no mercado alternativas que garantam a manutenção ou mesmo a redução desse custo. E é precisamente aqui que entra o sentido de responsabilidade", concluem os dois responsáveis da multinacional italiana. "Apoiamos o seu negócio" é o lema da campanha que a Caixa Seguros está a promover neste final de ano junto do segmento empresarial, procurando reforçar a penetração da sua oferta de Acidentes de Trabalho por Conta de Outrem e posicionando-se como "apoiante activa na recuperação da economia nacional ao propor bons negócios aos nossos clientes", refere Rita Sambado, directora de Marketing da Fidelidade Mundial eImpério Bonança. "No actual contexto de crise económica, o grande desafio das seguradoras reside na gestão eficiente das carteiras de seguros de cada produto, de modo a poder continuar a assumir as suas responsabilidades, sem fazer reflectir esse custo no cliente", confirma a responsável da Caixa Seguros, revelando que no caso do seguro de Acidentes de Trabalho por Conta de Outrem, a aposta passa por "reduzir custos e acrescentar valor para o cliente, sem aumentar o prémio de seguro". A estratégia para fazer face a tempos difíceis na gestão do ramo Acidentes de Trabalho está claramente traçada na Caixa Seguros. "Gerir de forma eficiente a área de sinistros, racionalizar recursos, optimizar processos, monitorizar performances, são algumas das tarefas quotidianas que nos permitem operar num mercado volátil e em constante mutação, assegurando níveis de qualidade superiores. Igualmente a procura constante do equilíbrio da carteira e a aposta na dispersão de risco entre as actividades é determinante para assegurar a estabilidade do produto", constata Rita Sambado. Para acrescentar valor ao seguro obrigatório, as companhias do grupo CGD apostam em serviços complementares, como a Linha Acidentes, para apoio aos sinistrados, a rede clínica convencionada e os acordos estabelecidos com associações farmacêuticas para facilitar o acesso dos sinistrados aos medicamentos necessários para a sua recuperação. Mas será possível resistir à necessidade de aumentar prémios de seguro no ramo Acidentes de Trabalho? Raul Neves, director de Placement da corretora Marsh, assegura que não. "Considerando os níveis de rentabilidade actualmente exigidos pelo mercado para fazer face ao aumento das responsabilidades e aos resultados técnicos deficitários dos últimos anos, o ajustamento dos prémios vai ser inevitável", garante o responsável da Marsh. "Para contrariar esta tendência de aumentos/ajustamentos é fundamental a existência de uma mudança comportamental ao nível das empresas, focalizando cada vez mais os objectivos numa perspectiva de controlo de Perdas/Acidentes (identificação, avaliação e aplicação de medidas de controlo de acidentes), formação e implementação de boas práticas", adianta Raul Neves, que identifica também o impacto de eventuais medidas tomadas nesse sentido. Prevê o responsável da Marsh que "a adopção deste tipo de medidas permitirá controlar não só os custos directos com acidentes que resultam em impacto nos prémios de seguro, como também nos custos indirectos (que são substancialmente mais pesados que os directos), com impacto em ausências, novas formações, ou seja controlar o custo total do risco".